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Igreja de Nossa Senhora
da Trindade
PROTO-HISTÓRIA
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Foi
o Capitão General Governador do Estado do Grão Pará e Maranhão
Francisco Xavier de Mendonça Furtado quem solicitou ao Ministério
Real, através do Conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho e Melo
- seu irmão, que viria a ser, mais tarde, o poderoso Marquês de
Pombal o envio de famílias e homens solteiros para povoarem a Vila
de Sousa do Caeté, já denominada de Bragança, em dezembro de 1753. A
migração só começou em 1755 e em 1759, proveniente da Angra do
Heroísmo de uma das ilhas do arquipélago dos Açores, chega a Belém
José António Abranches, angrense com 16 anos, acompanhado de três
irmãos menores: Joaquim José, 14; José João, 12 e João António, 10,
órfãos de pai e mãe. José António Abranches chegou no mesmo
ano em que daqui partia o governador Francisco Xavier de Mendonça
Furtado que concedera a Abranches a mercê de ficar em Belém para
trabalhar na lavoura. Católico fervoroso, José António e seus irmãos
eram devotos da Santíssima Trindade. O Senado da Câmara, sob a presidência de Feliciano Ramos Nobre
Mourão e os vereadores João Luís Francisco Barbosa, Felicíano Ferrão
e Peres da Silva, concederam aos irmãos Abranches o uso das terras
situadas antes e aquém do Lago do Piry. Aos 19 anos, três anos
depois de fixar-se na terra, Abranches já mantinha viçosas leiras de
hortaliças, uma respeitável criação de porcos da raça "Du-roc", aves
(galinhas e patos), além de cultivar um respeitável pomar onde os
laranjais e limoeiros começavam a produzir à farta.
 Desse labor, outras pessoas começaram a aproximar-se e fazer suas
casinhas e, desse modo, surgiu um novo bairro na cidade, denominado
de "Aldeia". Abranches e seus irmãos começaram a comercializar o
que colhiam e os grandes consumidores de seus produtos eram os
barcos da Companhia de Comércio do Grão Pará e Maranhão que,
torna-viagem, abasteciam-se de tudo, sendo apreciadíssimas suas
laranjas e limões que, além de servirem aos tripulantes, serviam de
garantia contra o "cólera morbos" e outras doenças que grassavam
entre eles. Tal prática levou Abranches a acumular considerável soma
em "patacas", o que lhe deu a condição de "apatacado". O início do
Século XIX recrudesceu em Abranches, já com 58 anos, o desejo de
construir uma Igreja em honra da Santíssima Trindade, Em 1802 pôs em
andamento o seu projeto. Solicitou ao 7° Bispo do Pará, D. Manuel da
Silva Carvalho, permissão para construir a Igreja. Esta lhe foi
concedida, mas o Bispo adiantou-lhe que o bispado era carente de
recursos, mas, que "se os recursos próprios acabarem, tens permissão
para buscar espórtulas entre o povo". De posse da permissão do Bispo
d. Manuel, Abranches dirigiu-se ao Paço do Conselho onde estavam
reunidos os seguintes vereadores: Bento de Figueiredo Tenreiro,
António Álvares Fernandes de Carvalho, Caetano Alberto Ribeiro, João
de Araújo e Francisco Pereira de Cristo. Foi tão apaixonante a
exposição de Abranches na presença dos vereadores que dir-se-ía
tocado pela Santíssima Trindade, atingindo o clímax da emoção quando
rematou: "A vida já me foge, mas antes que ela fuja por inteiro, hei
de ver a Igreja de Nossa Senhora da Trindade erguida.” O Presidente do Senado da Câmara e seus presididos concederam o que
Abranches pedia e fez mais Bento de Figueiredo Tenreiro, o
Presidente: concitou os vereadores a dirigirem-se, acompanhados de
José António Abranches, até a presença do Capitão General Governador
Francisco Maurício de Sousa Coutinho, para aprovação. O terreno
cedido situava-se em um pequeno outeiro e toda a área existente ao
redor da pequena elevação próxima ao Grande Lago do Piry, na
mesopotâmia formada peio Lago e Igarapé da Comedia do Peixe Boi
(atual Arcipreste Manoel Theodoro), pertencia à Igreja. Era o ano
de 1802. Abranches atirou-se com denodo na faina de construirá
Igreja. Logo, logo, o humílimo povo do bairro da Aldeia, ao ver o
entusiasmo incontido de Abranches na construção do templo, juntou-se
para ajudá-lo de todas as formas. Com esse apoio, Abranches fundou a
Irmandade da Santíssima Trindade- "Santo Mistério de nossa
religião", como diz José António. A exsicação do Grande Lago do
Piry começou justamente nas proximidades da construção da Igreja,
para alegria de Abranches. Esse trabalho foi ordenado pelo novo
governador D. Marcos de Noronha e Brito, o Conde dos Arcos. A
Irmandade da Santíssima Trindade tornou-se poderosa com a entrada
das famílias endinheiradas. A festa da cumeeira, bem como a
cobertura e a construção do altar. Foram emoções demais para José
António Abranches. No dia 4 de novembro de 1804, com 62 anos, sua
vida apagou-se. A consternação foi imensa pelo fato de ter sido
Abranches o instituidor da devoção à Santíssima Trindade, em Belém e
no Pará. Seu corpo foi sepultado no terreno do adro da Igreja, em
sua parte posterior, na altura da atual Rua dos 48. Nove anos
depois, em 1813, estava concluída a Igreja, tendo apenas o
altar-mor, quatro arcos nas paredes laterais indicando os lugares em
que, no futuro, deveriam ser edificados mais quatro altares, sendo
dois em cada lado, tudo isso graças aos esforços dos três irmãos do
falecido Abranches. No ano seguinte, em junho, teve lugar a
abertura e inauguração da Igreja de Nossa Senhora da Trindade. A
Irmandade mandara buscar, em Lisboa, um artístico painel, óleo sobre
tela, indicativo do orago da Santíssima Trindade, da lavra do famoso
pintor António Leonardo, que estivera em Belém acompanhando o
séqüito do Conde dos Arcos. Encomendara, também, todos os
paramentos e demais objetos do culto em ouro e prata, bem como uma
profusão de fogos de artifício. No dia 1° de junho de 1814, o bispo
D. Manuel de Almada de Carvalho, pela manhã, benzeu o novo templo e,
à noite, houve as vésperas (hora canônica que vem depois das nonas e
correspondente as três da tarde) com queima de fogos de artifício
noite adentro e com grande afluência popular. No dia seguinte,
domingo, aconteceu a grande festa. A missa solene (laus laudemus)
foi presidida pelo prelado, com grande instrumental. À noite
prosseguiu o espetáculo da queima dos fogos, estando o templo aberto
a todos os fiéis. A partir desse dia, a Irmandade da Santíssima
Trindade mandava celebrar missa às sete horas nos domingos e dias
santos. Nos sábados, à noite, era rezada a ladainha. Anualmente
promovia-se a Festa da Santíssima Trindade com toda a magnificência. Todos os anos, 20 dias antes dessa Festa, a Irmandade levando a
Coroa de ouro, percorria a cidade, casa em casa, tirando esmolas
para a festa. Bons tempos aqueles em que se podia sair portando uma
coroa de ouro... Outra festa que marcou época em Belém, no Século XIX, era a de Nossa
Senhora do Rosário do Barreiro, promovida pela Sra. Maria Simoa,
devota fervorosa desde 1809 quando mandara buscar, em Lisboa, a
imagem da Senhora, em fino trabalho
escultural. A imagem era
colocada em um oratório, em sua residência situada na Rua dos
Inocentes (atual General Gurjão) esquina da Travessa São Mateus
(atual Padre Eutíquio). Lá eram celebradas missas aos domingos e
dias santos. A festa anual era promovida na Igreja de SantAna para
onde era levada com grande acompanhamento. Maria Simoa, com
recursos próprios e coadjuvada pela Irmandade, devidamente
autorizada pelo bispo D. Romualdo de Souza Coelho, fez edificar em
alvenaria, na parede lateral direita da Igreja de Nossa Senhora da
Trindade, um altar para receber Nossa Senhora do Rosário do
Barreiro. No dia 10 de abril de 1822, pronto o altar, a imagem saiu
da Igreja paroquial de SantAna, levada nos braços do pároco José
Joaquim Martins, paramentado de sua sobrepeliz e estola e
acompanhado de 24 clérigos de sobrepeliz e com tochas acesas.
A procissão saiu de Sant’Ana, às 18 horas, com grande acompanhamento
e foi depositada em seu altar definitivo. Pelo menos, assim se
pensava. Nessa noite na Igreja de Nossa Senhora da Trindade
celebrou-se as vésperas e, no dia seguinte, realizou-se a festa em
honra à nossa Senhora do Rosário do Barreiro. A Lei Provincial
número 63, de 4 de setembro de 1840, assinada pelo presidente da
Província do Pará, João António de Miranda, elevou a Igreja de Nossa
Senhora da Santíssima Trindade à categoria de Freguezia, tendo sua
instalação sido efetivada em 12 de março de 1843, ocasião em que foi
nomeado o seu primeiro vigário, o paraense Manoel Vasques da Cunha e
Pinho. Este vigário dotou a sua Igreja de pia batismal em mármore de
carrara, como também mandou edificar, em alvenaria, o segundo altar
fronteiro ao de Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, para
si-metrisara sua igreja paroquial. Esse padre faleceu sete anos
depois de sua investidura, isto em 1850, sendo substituído pelo
padre, também paraense, Dionísio Rodrigues Aliança. Este sacerdote
também veio a falecer depois de 11 anos prestados ao rebanho da
Freguesia da Santíssima Trindade, em 1861. O terceiro pároco foi o
padre baiano Manoel Ignácio da Silva Espíndola, que esteve à frente
da paróquia por seis anos, sendo transferido para a Bahia pelo bispo
D. António de Macedo Costa, que era baiano como ele. O antístete
nomeou como quarto vigário o francês Augusto João Maria Coller. A
história desse padre é interessante. Foi casado e quando ficou viúvo
entrou para o Seminário Diocesano que era dirigido por D. Macedo
Costa. Infelizmente, ao assumir a paróquia terminou com todas as
devoções e festas ali existentes. Retirou do seu altar a imagem de
Nossa Senhora do Rosário do Barreiro, colocando em seu lugar uma
outra imagem da Virgem Maria, para que fosse celebrado, em maio, o
mês mariano instituído por d. Macedo Costa. No altar em frente
entronizou a imagem de São José e o artístico painel representando a
Santíssima Trindade foi retirado sumariamente. Daríamos tudo para
ver como os nossos ancestrais a representavam. Nossa Senhora do
Rosário e o painel foram levados para lugar incerto e não sabido.
Eis a proto-história da Igreja de Nossa Senhora da Trindade.
Ademais, o bispo d. António de Macedo Costa, à moda dos touros de
Pamplona, investiu, com fúria, contra o protestantismo e a
maçonaria, contra as irmandades de Nossa Senhora de Nazaré, de
Sant’Ana, da Igreja de Nossa Senhora da Trindade - as mais poderosas
- e a das 300 famílias aglutinadas por Maria Simoa. Por isso, a
justiça o condenou a cinco anos de trabalhos forçados na Fortaleza
de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Mas isso já é outra história... E
há que se perguntar: por onde andarão as jóias da Igreja de Nossa
Senhora da Trindade ? A construção original, como já vimos na
matéria do historiador José Valente, iniciada sob o comando de José
António Abranches, data de 1814. A edificação atual é dal» JBb de
1942. A história secular da Igreja da Trindade, no centro de Belém,
se confunde com a história da expansão e da transformação da cidade.
 Governava o Pará dom Marcos de Noronha e Brito, o Conde dos Arcos,
quando foi iniciada a obra de aterramento do Igarapé Piri, como era
chamado o alagadiço da Juçara. Comprido e volumoso, o igarapé
serpenteava pela cidade, descendo da área onde se localizava o
Convento de São Boaventura, onde hoje está o Arsenal de Marinha,
indo, ora mais largo, vezes mais estreito, despejar as suas águas em
leitos que se bifurcavam em direção ao centro da cidade até
lançar-se na sua maior abertura: a Baía do Guajará. O historiador
António Baena, na obra "Compêndio das Eras", afirma que o Piri
impressionou de tal modo o padre João Daniel, que o sacerdote, ao se
referir à cidade, classificava-a por Oeste do Piri e Leste do Piri
para designar os tradicionais bairros da Cidade Velha e da Campina.
O Piri se constituía, por si só, um capítulo da história de Belém.
Em 1771, o engenheiro alemão Gaspar Gerardo Gronfelts cogitou
aproveitar a existência do igarapé no plano de transformação da
cidade. Ao invés de aterrar o extenso alagadiço, como era desejo do
governo, Gronfelts imaginou aproveitá-lo, em conjunto com os
igarapés do Reduto e das Almas, para a construção de três enormes
entradas de água, que seriam aproveitadas em diferentes canais que
dariam a Belém beleza ainda maior que a da cidade de Veneza, na
Itália.
Contrariando o plano
urbanístico de Gronfelts, o Conde dos Arcos não quis transformar
Belém numa segunda Veneza. Achou melhor eliminar o enorme igarapé,
encarregando, para isso, o engenheiro João Rafael Nogueira. Assim,
aos poucos o grande igarapé foi desaparecendo. Em conseqüência,
novas estradas surgiram. Grandes áreas foram aproveitadas. O
governador passou a incentivar a construção nos trechos por onde
antes corria o Piri. Nas imediações da Aldeia, como era chamada a
atual Rua Ferreira Cantão - antiga Bailique, próximo à Estrada das
Mongubeiras, hoje Avenida Almirante Tamandaré, área que antes era do
Piri, morava José António Abranches.
O idealizador da Igreja, que foi aberta ao culto em 1814, no dia
consagrado à Santíssima Trindade.
O seu primeiro vigário foi o padre Manuel Vasques da Cunha e Pinho,
que presenteou a pia batismal à igreja. No objeto se vê, em alto
relevo, o nome do doador. A pia contém a legenda:
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MANDADA A FAZER POR
SS
O REmo SNR VIGÁRIO
TRI
MANOEL VASs C.HA PINHO
DE |
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Anos mais tarde, o
templo virou ruínas. Em 1894 foi fechado, passando a paróquia a
funcionar na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
Nesse mesmo ano, em 14 de outubro, o monsenhor José Gregório Coelho
benzeu e colocou a primeira pedra da capela mor da Trindade.
Coube ao padre
Miguel Inácio, que substituiu o monsenhor Hermenegildo Perdigão na
direção da paróquia, iniciar os trabalhos de restauração da secular
igreja. Em 14 de setembro de 1942 a Igreja da Trindade foi reaberta
ao culto. A benção solene ao templo e às imagens foi concedida pelo
monsenhor António Cunha. A primeira missa celebrada no templo da
Trindade, depois da reinauguração, foi pela alma do senador Cipriano
Santos, que se distinguiu ajudando na reforma da igreja. Um dos
fatos históricos marcantes da vida do templo é a placa de mármore
afixada na parede de fora do prédio da igreja, pela Rua Presidente
Pernambuco, que identifica a data comemorativa da abolição da
escravatura no Pará.
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AVE LIBERTAS A SOCIEDADE
UNIÃO REATORA CONTRA A
ESCRAVIDÃO MANDOU COLOCAR ESTE
PADRÃO OFFERECIDO PÊLOS PATRIOTAS MELLO
& NAVIO PARA COMMEMORAR A EXTINÇÃO
DA ESCRAVIDÃO NESTA RUA E PRAÇA COMO
PRIMEIRAS DA CAPITAL OUE CONSEGUIRAM
A ELEVADA GLORIA DE SEREM
DECLARADAS LIVRES.
BELÉM, 11 DE ABRIL DE 1888 |
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Os restos mortais do
monsenhor Hermenegildo foram transferidos para a Igreja da Trindade.
Depositados na Sacristia, estão assinalados com a seguinte
inscrição:
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À MEMÓRIA DE
MONS. HERMENEGILDO PERDIGÃO
HOMENAGEM DE HERMENEGILDO CARVALHO
18-9-1942. |
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Nas últimas décadas
o sacerdote que mais tempo esteve a frente da Paróuia foi monsenhor
Miguel Inácio – falecido - o qual esteve na função por 50 anos, com
o apoio dos padres co-adjuntores, Carlos Coimbra (hoje afastado do
ministério sacerdotal), Emanuel Teixeira, José Edmundo Santiago e
Paulo César Falcão. Padre José Maria Albuquerque, monsenhor Aderson
Neder, monsenhor Geraldo Menezes (hoje Pároco Emérito) e padre
Cirilo Rocha também foram alguns dos sacerdotes que exerceram a
função de párocos na Santíssima Trindade. Deve ser destacado o
trabalho do monsenhor Geraldo Menezes que foi titular da paróquia
por mais de 20 anos. Entre suas importantes obras estão a
implantação do Encontro de Casais com Cristo, em 1977, e a
construção do Centro Monsenhor Miguel Inácio (Salão Paroquial) e o
edifício que leva o seu nome - Centro Social Monsenhor Geraldo
Menezes - iniciado em 1985 e concluído quase 10 anos depois. Desde
31 de janeiro de 1998 o comando paroquial está entregue ao
entusiasmo, competência e visão de futuro do padre Ronaldo Menezes,
que promoveu a completa recuperação do templo, dotando-o, inclusive,
de ar refrigerado, além de promover uma ampla reestruturação das
pastorais e serviços buscando adequá-los às diretrizes
arquidiocesanas e à nova realidade da Igreja Católica. |