Vox Dei nº 403 de 12 de junho de 2016

Temos acompanhado, nos últimos domingos, o Evangelho de Lucas apresentando narrativas sobre Jesus como um amigo que se aproxima das pessoas, independentemente de sua religião e condição social. Continuando essa característica, a liturgia deste domingo nos fala de um Deus de bondade e de misericórdia, que detesta o pecado, mas ama o pecador. O trecho conta a história “da mulher pecadora”, e é só Lucas que narra esse episódio também conhecido como o “Evangelho da Misericórdia”. Para evangelizar, Jesus aceitava com alegria os convites para fazer refeições nas famílias… Vai à casa de Simão e a conversa estava animada… de repente aparece uma mulher intrusa… a mulher já era pouco valorizada, imaginem uma prostituta? Ela enfrenta a condenação dos “bem comportados”. Não fala nada. Suas lágrimas e o perfume precioso falam por ela. O gesto tocou o coração de Jesus.

Por que procurou Jesus? Provavelmente já O conhecia. O Mestre devia tê-la impressionado profundamente. O seu olhar era diferente dos que a olhavam com interesse para aproveitar de seu corpo e sua beleza… ou dos que a desprezavam… ou a condenavam… O “muito amor” manifestado pela mulher é o resultado da atitude de Jesus: nasce de um coração agradecido que não se sentiu excluído, nem marginalizado, mas que nos gestos de Jesus tomou consciência da bondade e da misericórdia de Deus. No episódio, encontramos três personagens: um que convida, um que é convidado e uma que aparece sem ser convidada. Três olhares diferentes: o olhar orgulhoso de Simão, com desprezo daquela pecadora e com desconfiança até do gesto de Cristo, o olhar misericordioso de Cristo, que valoriza o gesto de amor da pecadora e censura a arrogância do fariseu puritano, e o olhar humilde da pecadora, que reconhece seu pecado e descobre no gesto de Jesus a misericórdia de Deus. A atitude de Deus: Ele ama sempre… Ele ama todos como filhos e a todos convida a integrar a sua família. É esse Deus que temos de propor aos nossos irmãos e que precisamos apresentar àqueles que a sociedade trata como marginais.

A figura de Simão representa os que, instalados nas suas certezas e numa prática religiosa feita de ritos e obrigações bem definidos e rigorosamente cumpridos, se acham “em dia” com Deus e com os outros. Consideram-se “bons cumpridores” de suas obrigações e desprezam os que não as cumprem. Em nossas comunidades, há ainda hoje situações semelhantes? Sabemos que a Igreja não é formada de “justos”, mas de pecadores que foram perdoados e necessitam sempre do perdão de Deus e dos irmãos. Quantas vezes também nós podemos nos considerar mais ou menos “perfeitos” e desprezamos os que nos parecem pecadores, imperfeitos? A exclusão e a marginalização não geram vida nova, só o amor e a misericórdia interpelam o coração e provocam uma resposta de amor.