Vox Dei nº 410 de 31 de julho de 2016

A reflexão que nos traz o Evangelho deste domingo diz respeito à necessidade de nos preservarmos da ganância. Podemos perguntar: o que está por trás desse texto? Vamos analisar. Naquele tempo havia como que dois modelos econômicos: o do campo e o da cidade. O do campo alicerçava-se na partilha, através da solidariedade, da troca de produtos. Isso impedia que os endividados caíssem em desgraça e tivessem que emigrar para a cidade, tornando-se mendigos ou bandidos. O da cidade, ao contrário, era fundamentado na ganância, no acúmulo, na lei do mais forte. Isso naturalmente é fonte de exclusão e marginalidade, e gera mendicância, violência, roubo. Sem dúvida o texto sagrado de hoje reflete a situação do modelo econômico da cidade e não do campo, revela a avidez e a exploração, não a partilha. Jesus toma posição em favor da partilha, mas sem se colocar como árbitro entre os que possuem riquezas.

Neste Evangelho Jesus nos ensina a mensurar nossa real motivação diante dos bens materiais e avaliar o fascínio que a riqueza exerce sobre nós. Mais uma vez aprendemos com Jesus a nos manter vigilantes em torno dos nossos pensamentos e reais intenções.

Percebendo a ganância da pessoa que pleiteava junto ao irmão a parte que lhe cabia na herança, Jesus narra a parábola do “homem rico”. Assim, Ele deixou bem claro que os bens materiais não se constituem alicerce para assegurar vida longa aqui na terra nem tampouco tijolos para a construção do nosso lar celestial.

Mesmo que a nossa propriedade gere uma grande colheita material, o fato de possuirmos em abundância não nos dá o direito de permanecer na passividade, confiando na boa reserva que temos para muitos anos. Às vezes nós poupamos dinheiro e fixamos o olhar somente no que iremos embolsar em termos de juros e, quanto mais auferimos, mais os nossos olhos “crescem”. Porém, na verdade, nem temos a ciência exata da utilidade desse dinheiro e sua destinação. Parece, que só pelo fato de possuirmos aquele “algo a mais” depositado no banco nós também, como o rico da parábola, podemos nos sentir confortáveis para dizer a nós mesmos: “meu caro, tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!”.

O que Jesus recriminou no rico não foi tanto o fato de ele ter muitos bens ou mesmo de poupá-los, mas foi a sua intenção de guardar a fortuna somente para si, achando-se, por isso, protegido e dono da sua existência. A nossa vida está entregue nas mãos de Deus e somente Ele tem o seu controle, sejamos nós, pobres ou ricos. No entanto, podemos ser ricos diante de Deus quando colocamos tudo o que possuímos à Sua disposição esperando os proveitos e a recompensa na forma que Ele quiser nos oferecer.