Vox Dei nº 417 de 18 de setembro de 2016

O Evangelho de hoje apresenta uma parábola de certo modo bastante atual, a do administrador infiel. O personagem central é o administrador de um proprietário de terras, figura muito comum naquela época, quando se regiam sistemas de posse por usufruto.

Como as melhores parábolas, esta é como um drama em miniatura, cheio de movimento e de mudanças de cena. A primeira tem como atores o administrador e seu senhor e conclui com uma dispensa taxativa: “Já não podes ser administrador”. Este não esboça sequer uma autodefesa. Tem a consciência suja e sabe perfeitamente que tudo aquilo que o patrão ficou sabendo a seu respeito é certo. A segunda cena é um monólogo do administrador que acaba de ficar sozinho. Não se dá por vencido; pensa em soluções para garantir um futuro. A terceira cena – o administrador e os camponeses – revela a fraude que idealizou com esse fim: “Tu, quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem sacos de trigo’. O administrador disse: ‘Pega a tua conta e escreve: oitenta’”. Um caso clássico de corrupção e de falsa contabilidade que nos faz pensar em frequentes episódios parecidos em nossa sociedade, ainda que em uma escala muito maior.

Ao contar para os Seus discípulos esta parábola, Jesus quis dar, a eles e a nós, a lição de que devemos usar a sabedoria e a nossa inteligência também quando tratamos das coisas de Deus aqui nesse mundo. Ele não elogiou a atitude desonesta do administrador, mas a motivação que o levou a angariar a amizade das pessoas.

Estas pessoas são aquelas a quem nós ajudamos e com as quais nos solidarizamos nas horas de necessidade, não importando o tamanho do bem que fazemos ou a quantia que ofertamos. Por isso, é a maneira como vivemos e o nosso modo de ser, de tratar o semelhante, de acolher, de compreender, de dispensar que fará com que sejamos recebidos um dia nos tabernáculos eternos.

A compaixão que exercitarmos com os nossos semelhantes, o perdão e a misericórdia são ações sábias que devemos colocar em prática enquanto estivermos aqui na terra, porque elas nos servirão de passaporte para o reino dos céus. Normalmente nós colocamos mais empenho nos negócios do mundo do que nos interesses de Deus e damos prioridade ao que rende mais aqui na terra do que o tesouro que juntamos no céu. Os que tratam com as riquezas deste mundo, sabem fazer isso de modo desonesto. Os filhos da luz, porém, muitas vezes não sabem fazer assim para conquistar a amizade das pessoas e agradar a Deus.

É como dizer: fazei como aquele administrador; fazei-vos amigos daqueles que um dia, quando vos encontrardes em necessidade, possam acolher-vos. Esses amigos poderosos, sabemos, são os pobres, já que Cristo considera dado a Ele, em pessoa, o que se dá ao pobre. Os pobres, dizia Santo Agostinho, são de certa forma, nossos correios e transportadores: eles nos permitem transferir, desde agora, nossos bens na morada que se está construindo para nós no céu.