Vox Dei nº 422 de 23 de outubro de 2016

No Evangelho de hoje Jesus nos mostra, com clareza, que pensamento tem a respeito da nossa oração, especialmente diante de Deus que nos conhece mais do que nós mesmos. Ao mesmo tempo passamos a compreender o sentido real e concreto do ato de ser humilde. 

Comparando a oração do fariseu com a do publicano, vejamos o que Jesus nos ensina: o fariseu nomeia todas as suas observâncias, tudo o que faz, conforme manda a Lei! Ele não conta nenhuma mentira e faz aquilo mesmo, só que confia absolutamente no poder da sua prática para garantir-lhe a salvação. Assim, dispensa a graça de Deus, pois, se a Lei é capaz de salvar ele não precisa da graça. E o fariseu ainda se dá ao luxo de desprezar os que não viviam como ele, ou porque não queriam, ou porque não conseguiam: “Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros homens, que são ladrões, desonestos, adúlteros, nem como esse cobrador de impostos.” 

O publicano também não mente quando reza! Longe do altar, nem se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito em sinal de arrependimento e dizia: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador”. E era a verdade mesmo, ele era vigarista, ladrão, opressor do seu povo, traidor da sua raça, mas tinha consciência disso, e não só disso, mas do fato de que por ele mesmo seria incapaz de mudar a sua situação moral. Sua única esperança era lançar-se diante da misericórdia de Deus. 

Para o espanto dos seus ouvintes, Jesus afirma que o desprezado publicano voltou para a casa “justificado” por Deus, e não o outro, o fariseu. Pois é Deus quem nos torna justos por pura gratuidade, e não em recompensa por termos observado as minúcias duma Lei. 

O farisaísmo entrou fortemente nas tradições de espiritualidade, permanecendo até os dias de hoje. Como as nossas pregações reduziam a fé e o seguimento de Jesus à uma observância externa duma lista de Leis! Como reduzimos Deus a um mero “banqueiro”, que no fim da vida faz as contas e nos dá o que nós “merecemos”, segundo uma teologia de retribuição! Segundo aquele entendimento, quem tem a conta em ‘haver’ com Ele, ganhará o céu, e quem está em dívida irá para o inferno... E a graça de Deus? E a cruz de Cristo? 

Paulo mudou de vida quando descobriu que a Lei, por si só, não era capaz de salvar, mas que somente Deus salva através de Jesus Cristo, sem mérito algum nosso! Com esta descoberta, se libertou e defendia este seu “evangelho” a ferro e fogo! O texto de hoje nos convida a examinarmos até que ponto deixamos o farisaísmo entrar em nossas vidas; até que ponto confiamos em nós mesmos como agentes da nossa salvação; até que ponto nos damos o direito de julgar os outros, conforme os nossos critérios. É uma advertência saudável e oportuna alertando contra uma mentalidade “elitista” e “excludente” que pode insinuar-se na nossa espiritualidade, como fez na do fariseu, sem que tomemos consciência disso!